Sobre a Salmodia

[Por: Agostinho (354 – 430)]

“…Os prazeres do ouvido me prendem e escravizam com mais tenacidade, mas tu me soltaste e me livraste deles. Ainda agora encontro algum descanso nos cânticos vivificados pelas tuas palavras, quando entoados com suavidades e arte, sem porém permanecer preso, a ponto de não me desvencilhar quando quero. É verdade que essas melodias exigem não pequeno lugar em meu coração, e querem ser aí admitidas em companhia dos pensamentos que as vivificam, e eu me esforço para conceder-lhes apenas o que lhes convém. Às vezes, parece-me tributar-lhes atenção excessiva; mas, por outro lado, sinto que, se aquelas palavras são cantadas assim, nossas almas são impelidas a um fervor de piedade mais devoto e mais ardente. Sinto que todos os nossos afetos interiores encontram na voz e no canto um modo próprio de expressão, uma como misteriosa e excitante correspondência.”… (AGOSTINHO, 1997, pp. 307-308)

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“…Outras vezes, pelo contrário (mas muito raramente), exagerando em precaver-me desse perigo, peco por excessiva severidade, a ponto de querer privar meus ouvidos, e consequentemente os de toda a igreja, das suaves melodias usadas para acompanhar o Saltério de Davi. Nessas ocasiões, me parece mais seguro seguir o costume de Atanásio, bispo de Alexandria: segundo ouvi dizer, ele fazia ler os salmos com modulação de voz tão discreta, que mais parecia uma recitação que um canto. Todavia, quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cânticos de tua igreja nos primórdios de minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não tanto pela música como pela letra dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulação apropriada, reconheço de novo a grande utilidade deste costume. Assim, oscilo entre o perigo do prazer e a constatação de seus efeitos salutares. “… (AGOSTINHO, 1997, pp. 308-309)

AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Paulus, 1997.