Sobre a Salmodia

[Por: John Gill]

“…salmos, e hinos, e cânticos espirituais,”… [Efésio 5:19; Colossenses 3:16]

3a. Por “Salmos” deve-se entender o Livro dos Salmos, composto por Davi, Asafe e outros, mas principalmente por Davi, daí ele ser chamado de “o doce salmista de Israel” (2 Sm 23:1). Este é o único sentido usado para palavra salmos em todo o Novo Testamento. Não há qualquer razão para acreditar que o apóstolo Paulo projete qualquer outro sentido nos locais referidos, nem muito menos o apóstolo Tiago, em Tg 5:13. Aqueles que pensam diferente devem mostrar o outro sentido e onde em que a palavra é usada que não seja para os “Salmos de Davi” e outros, pois é certo que há salmos que devem ser cantados sob a dispensação do evangelho.

3b. Por “hinos” não se deve entender as meras composições humanas, uma vez que não se deve conceber o apóstolo ordenando cantar essas produções com o mesmo nível daquelas inspiradas pelo Espírito Santo. Na realidade hinos é mais outro nome dado ao Livro dos Salmos, com assim concebe Ainsworth ¹⁶. O salmo cento e quarenta e cinco é chamado de hino de Davi. Nosso Senhor cantou um salmo com os seus discípulos após a Ceia, que nas Escrituras está a se chamar de hino. Do mesmo modo os salmos de Davi são chamados de “hinos” tanto por Josefo ¹⁷ como por Filo, o judeu ¹⁸.

3c. Por “cânticos espirituais” também se deve entender os mesmos salmos de Davi, Asafe e outros. Os títulos de algumas dessas canções às vezes vêm como “um salmo e música, uma música e salmo ou uma canção de graus” e similares. Essas canções juntamente com todas as outras músicas espirituais escritas por homens inspirados por Deus são chamadas de “espirituais” porque o autor e calígrafo delas foram inspirados pelo Espírito de Deus. O assunto delas é espiritual, útil para a edificação espiritual e se opõem a todas as músicas soltas, profanas e lascivas. Como essas três palavras, “salmos, hinos e cânticos espirituais” se adequam com propriedade ao Livro dos Salmos de Davi e, segundo a “Septuaginta” pelas palavras gregas usadas pelo apóstolo, pode-se razoavelmente concluir que era essa a intenção de Paulo ao exortá-los a cantar salmos, hinos e cânticos espirituais. Não nego que a Palavra de Deus e Cristo forneçam tema para cantar, mas que de tais hinos e cânticos espirituais, composto por bons homens não inspirados, possa se fazer uso deles, ao ponto de torná-los tão agradáveis quanto os Escritos sagrados e à analogia da fé. Tertuliano ¹⁹, falando no seu tempo, diz que tais hinos, como eram composições sob a luz (ou inspirados na Sagrada Escritura) da Sagrada Escritura ou “de próprio engenho”, em comparação com as canções entoadas pelos irmãos em louvor a Cristo, eram tomados como Palavra de Deus entre os hereges ²⁰.

Notas
[16] “Vox umnoi, cum Hebraeo titulo Mylht multo Meliuscongruit”. Lowth.
[17] Antiq. l. 7. c. l2.
[18] L. de mutat. nom. et l. de Somnis, et alibi.
[19] Apolog. c. 39.
[20] Euseb. Hist. Eccl. l. 5. c. 28. & L. 7. c. 30.
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John Gill – A Body of PRACTICAL Divinity, Book 3 – Chapter 7, OF SINGING PSALMS, AS A PART OF PUBLIC WORSHIP
Tradução: Luciano Oliveira