O Amor que excede todo conhecimento

[Por: Martinho Lutero]

De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,
Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus
[Filipenses 2:5-6]

“…Isto é o que diz o tema anteposto: “Tenham em vocês o mesmo sentimento etc.” (Fl 2.5); isto é, que tenham a mesma atitude e sentimento um para com o outro como vêem que Cristo os teve em relação a vocês. Como isto? “Ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, etc.” A forma de Deus não é chamada aqui de essência de Deus, porque desta Cristo nunca se despojou; de igual modo também a “forma de servo” não pode ser chamada de essência humana; e sim, “forma de Deus” é sabedoria, poder, justiça, bondade, e ainda liberdade, assim como Cristo foi um homem livre, forte, sábio, sujeito a ninguém, nem ao vício nem ao pecado, como são todos os seres humanos (pois ele era superior naquelas formas que cabem principalmente a Deus). Mesmo assim ele não se ensoberbeceu desta qualidade, não agradou a si mesmo, tampouco se enfastiou com os outros nem desdenhou os que eram servos e estavam sujeitos a diversos males, como aquele fariseu que disse: “Graças te dou, que não sou como as outras pessoas” (Lc 18.11), que se alegrava com o fato de os outros serem miseráveis, não querendo de forma alguma que eles fossem semelhantes a ele. Essa é a usurpação que a pessoa se arroga, sim, com a qual ela guarda o que tem e não o atribui exclusivamente a Deus (a quem pertencem esta coisas), nem serve aos outros com as mesmas, para fazer‑se igual aos outros. Assim querem ser como Deus, suficientes em si mesmos, autocomplacentes, gloriando-se a si mesmos, sem dever nada a ninguém, etc. Cristo, porém, não teve esta atitude, não é assim que ele foi “sábio”, e sim, aquela forma divina ele a atribuiu ao Pai, e se esvaziou a si mesmo, não querendo utilizar aqueles títulos frente a nós, não querendo ser diferente de nós; sim, antes ele se tornou para nós como um de nós e aceitou a forma de servo (isto é, sujeitou-se a todos os males). Mesmo sendo livre, como também diz o apóstolo (1 Coríntios 9.19), se fez servo de todos, não agindo de outra forma senão como se fossem seus todos esses males que eram nossos. Por isso ele tomou sobre si nossos pecados e castigos e agiu de forma tal que os vencesse como que para si mesmo, sendo que na realidade ele os venceu para nós. Com respeito a nós, ele poderia ser nosso Deus e Senhor. Ainda assim não o quis, mas preferiu tornar-se nosso servo, como diz Romanos 15.3: “Não devemos agradar a nós mesmos”, pois também Cristo não se agradou a si mesmo. Mas, como está escrito, “as injúrias dos que te ultrajam caem sobre mim” (Sl 69.9), que expressa o mesmo que a sentença acima.”…

Sermão publicado pela primeira vez em 1519, na casa editora de Johann Grünenberg
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Martinho Lutero – Obras selecionadas de momentos decisivos da Reforma. Trad. Walter O. Schlupp. Porto Alegre: Concórdia & São Leopoldo: Sinodal, 1984. pp. 65-73.
Fonte – e-cristianismo