Cristo e os diversos ouvintes da Palavra

[Por: Martinho Lutero]

E, ajuntando-se uma grande multidão, e vindo de todas as cidades ter com ele, disse por parábola:
Um semeador saiu a semear a sua semente e, quando semeava, caiu alguma junto do caminho, e foi pisada, e as aves do céu a comeram;
E outra caiu sobre pedra e, nascida, secou-se, pois que não tinha umidade;
E outra caiu entre espinhos e crescendo com ela os espinhos, a sufocaram;
E outra caiu em boa terra, e, nascida, produziu fruto, a cento por um. Dizendo ele estas coisas, clamava: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
E os seus discípulos o interrogaram, dizendo: Que parábola é esta?
E ele disse: A vós vos é dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros por parábolas, para que vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam.
Esta é, pois, a parábola: A semente é a palavra de Deus;
E os que estão junto do caminho, estes são os que ouvem; depois vem o diabo, e tira-lhes do coração a palavra, para que não se salvem, crendo;
E os que estão sobre pedra, estes são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria, mas, como não têm raiz, apenas crêem por algum tempo, e no tempo da tentação se desviam;
E a que caiu entre espinhos, esses são os que ouviram e, indo pordiante, são sufocados com os cuidados e riquezas e deleites da vida, e não dão fruto com perfeição;
E a que caiu em boa terra, esses são os que, ouvindo a palavra, a conservam num coração honesto e bom, e dão fruto com perseverança.” [Lucas 8:4-15]

“…SEÇÃO I. A NATUREZA DA PALAVRA FALADA AQUI.

Este Evangelho trata dos discípulos e dos frutos que a Palavra de Deus desenvolve no mundo. Ele não fala da lei nem das instituições humanas, mas, como o próprio Cristo diz da Palavra de Deus, que ele próprio prega como semeador, pois a lei não dá fruto, tampouco as instituições dos homens. Porém Cristo estabelece aqui quatro tipos de discípulos da Palavra divina.

SEÇÃO II. OS DISCÍPULOS DESTA PALAVRA.
A primeira classe de discípulos são aqueles que ouvem a Palavra, mas não entendem nem a estimam. E estas não são as pessoas médias do mundo, mas as maiores, mais sábias e mais santas. Em resumo, eles são a maior parte da humanidade, pois Cristo não fala aqui daqueles que perseguem a Palavra, nem daqueles que não conseguem dar seus ouvidos a ela, mas de quem a ouve e é estudante da mesma, dos que também desejam ser chamados verdadeiros cristãos e viver em comunhão cristã com cristãos, e que são participantes do batismo e da Ceia do Senhor. Mas eles têm um coração carnal, e permanecem assim, não se apropriam da Palavra de Deus para si, que entra por um ouvido e sai pelo outro. Dessa forma, a semente ao longo do caminho não vai cair na terra, mas permanece repousada no chão pelo caminho, porque este é duro, vagueado pelos pés de homens e pelas patas de animais, e ela não poderia ter raiz.(…)

A segunda classe de ouvintes são os que recebem a palavra com alegria, mas não perseveram. Estes são também uma grande multidão que entende a Palavra corretamente e se apoderam dela em sua pureza, sem qualquer espírito sectário, de divisão ou de fanatismo; eles também se alegram no que sabem acerca da verdade e são capazes de saber como podem ser salvos, sem as obras, através da fé. Eles também sabem que estão livres da escravidão da lei, de sua consciência e de ensinamentos humanos, mas quando se trata do teste de sofrerem dano, desgraça e perda de vida ou de propriedade, então eles caem e o negam, pois não têm raiz suficiente, e não são plantados a profundidade suficiente no solo. Eles, portanto, são como os que crescem sobre uma rocha, brotando frescos e verdejantes, cuja contemplação é um prazer e despertam brilhantes esperanças, mas quando o sol brilha quente eles murcham, por não terem solo e umidade, e lá somente a rocha permanece. Assim eles agem, em tempos de perseguição: eles negam ou mantêm silêncio sobre o Verbo, e lidam, falam e sofrem tudo o que seus perseguidores mencionam ou desejam o que anteriormente saía e era falado e confessou, com um espírito fresco e alegre, enquanto ainda havia paz e não o calor, de modo a haver esperança de que dessem muito fruto e servissem às pessoas. Esses frutos, por sua vez, não são apenas as obras, senão predominantemente a confissão, a pregação e a divulgação da Palavra, de modo que muitos outros possam, assim, ser convertidos e no reino de Deus ser desenvolvidos.

A terceira classe são aqueles que ouvem e entendem a Palavra, mas ainda caem do outro lado da estrada entre os prazeres e dos cuidados da vida, e, por consequência, eles também nada fazem com a Palavra. E há praticamente uma grande multidão destes, pois, apesar de não darem início às heresias, como a primeira classe, mas sempre possuírem a Palavra absolutamente pura, eles também são atacados: não à esquerda como os outros, com oposição e perseguição, mas sim caem pelo lado direito, e é sua ruína apreciar a paz e os bons tempos. Portanto, eles não se entregam sinceramente à Palavra, mas tornam-se indiferentes e afundam nos cuidados, riquezas e deleites da vida, de modo que eles não trazem benefícios a qualquer pessoa. Por isso, eles são como a semente que caiu entre os espinhos. Embora esse solo não seja rochoso, mas bom, não deixado de lado, mas arado profundamente, ainda assim os espinhos não vão deixá-la brotar: eles a sufocam. Assim, estes têm tudo na Palavra que seja necessário para a sua salvação, mas eles não fazem qualquer uso dela, e por conta disso apodrecem nesta vida em meio aos prazeres carnais. Estes pertencem àquele grupo que ouve a Palavra, mas não traz a sua carne em sujeição. Eles sabem o seu dever, mas não o fazem; eles ensinam, mas não praticam o que ensinam, e passam este ano como se fosse o último.

A quarta classe são aqueles que tomam posse e guardam a Palavra em um coração bom e honesto, e dão fruto com paciência; são aqueles que ouvem a Palavra e a retêm com firmeza, meditam nela e agem em harmonia com ela. O diabo não irá arrebatá-la para longe, nem são assim desviados; além disso, o calor da perseguição não irá roubá-la deles, e tanto os espinhos do prazer quanto a avareza em meio às circunstâncias não impedem o seu crescimento, mas eles dão fruto pelo ensino de outros e através do desenvolvimento do reino de Deus; eles, portanto, também fazem o bem ao próximo em amor, e, dessa forma, Cristo acrescenta: “eles dão fruto com perseverança.” Estes devem sofrer muito por conta da Palavra, da vergonha e da desgraça trazida por fanáticos e hereges, ódio e inveja com lesão corporal e em suas propriedades através de seus perseguidores, para não mencionar os espinhos e as tentações de sua própria carne, de modo que ela pode muito bem ser chamada de a “Palavra da cruz”, pois aquele que queira mantê-la deve carregar a cruz e o infortúnio, mas também o triunfo e a fidelidade.”…
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Martinho Lutero – The Parable of the Sower
Tradução – Cleber Olympio
Fonte – Militar Cristão