Envergonhado das Tendas de Sem? – Objeção ao cântico dos Salmos – 3

[Por: Johannes Geerhardus Vos]

“…3. Ênfase somente no elemento subjetivo.
Há uma tendência constante de usar somente aquelas porções dos Salmos que tratam com salvação subjetiva – uma experiência religiosa cristã – tais como a consciência do amor de Deus, do perdão, do cuidado de Deus. A tendência é considerar estas experiências da vida cristã como divorciadas do fundamento sobre o qual Deus as construiu, a saber, uma redenção histórica de um reino objetivo do mal. Tome, por exemplo, o Salmo 118, que incomparável cântico de graciosa redenção a sobrenatural, um cântico que emocionará o coração e a alma de qualquer cristão que ame a religião bíblica. Este Salmo 118 forma o clímax do Hallel ² que nosso Salvador e Seus discípulos cantaram após a instituição da Ceia do Senhor, antes deles deixarem o cenáculo para irem ao Jardim de Getsêmani.

Aqui esta a experiência cristã subjetiva da salvação, a maravilha da salvação pela graça divina:

Oh louvai ao Senhor, porque Ele é bom;
      Sua graça dura para sempre.
Digam agora as tribos de Israel,
      Sua benignidade dura para sempre.

Na minha angústia invoquei ao Senhor,
      Jeová me respondeu;
Ele me pôs num lugar espaçoso,
      Um lugar de liberdade.

O poderoso Senhor está comigo,
      Não temerei;
Por nada que o homem possa fazer
      Não recearei.

Jubiloso cântico de salvação é ouvido
     Onde os justos habitam;
A destra do poderoso Senhor
     Faz proezas.

Não morrerei, mas viverei e contarei
     O poder de Jeová para salvar;
O Senhor me castigou com severidade,
     Mas não me entregou à sepultura.

Mas esta exultação em salvação pessoal é baseada no fundamento objetivo da redenção divina histórica do mal. O mesmo Salmo que exulta na salvação subjetiva, também se gloria no fundamento da redenção objetiva e histórica:

A pedra que foi posta como pedra angular,
      Os edificadores rejeitaram;
Foi o Senhor que fez isto,
      E é maravilhoso aos nossos olhos.

O Senhor é Deus, e Ele sobre nós
      Fez resplandecer a luz;
Oh atai às pontas do altar
      Com cordas, o sacrifício.

Aí está. O jubiloso cântico de salvação é ouvido, é verdade; mas somente porque houve Um que foi desprezado e rejeitado dos homens, que foi feito a pedra angular por Deus, e atado como um sacrifício às pontas do altar. Toda vez que cantássemos estas solenes e sagradas palavras, deveríamos pensar em como nosso bendito Senhor foi pregada à cruz do Calvário para nossa redenção.

Atrás de nossa experiência pessoal do amor de Deus, do perdão de Deus, do cuidado de Deus, da resposta de Deus à oração; atrás de nossa alegria, nossa paz de mente e de nossa esperança – atrás de todas estas coisas há uma obra histórica de redenção, sem a qual nossa experiência cristã de hoje não poderia existir. A obra histórica de redenção foi desenvolvida pelo poderoso poder de Deus na histórica humana, de Gênesis a Apocalipse, da criação a consumação, mas especialmente na vida, morte, ressurreição e ascensão de nosso Senhor Jesus Cristo. Esta é a sólida pedra de granito sobre a qual nossa experiência de salvação pessoal descansa. Tal é a estrutura do Cristianismo real e bíblico. Esta é rígida e forte como granito, a verdadeira rocha dos séculos, o fundamento da obra poderosa de Deus de redenção histórica do mal.

Na Bíblia a experiência subjetiva presente do cristão está unida organicamente com a obra histórica de redenção. O que Deus uniu, não separe o homem. Separar estas duas é basicamente errado, e a tendência de assim o fazer, que é observável em quase todas as igrejas que cantam Salmos, é uma indicação de até onde estamos sendo influenciados, inconscientemente, pelo moderno idealismo religioso liberal.

A tendência dos livros de hinos modernos é largamente direcionada à super ênfase da experiência subjetiva às custas do fundamento objetivo. Até mesmo aquelas igrejas que não usam os hinos, freqüentemente mostram a mesma tendência pela maneira de escolher e selecionar entre os Salmos. Um Salmo será anunciado para cantar, e duas ou três estrofes tratam com o fundamento objetivo serão omitidas, enquanto as estrofes restantes, tratando com a experiência subjetiva, serão cantadas. Assim, em nossa tolice, somos como um homem que aprecia comer maças, mas despreza as macieiras e considera-as de pouco ou nenhum valor. Admitidamente, não podemos comer as raízes, cascas e ramos da macieira; mas serão elas, portanto, negligenciadas e tratadas como de nenhuma importância? Separaremos o que Deus uniu? Não revelaríamos através disso uma fraqueza moral, uma falha séria em captar o real caráter e estrutura da religião bíblica?

Aquelas características que são desagradáveis ao espírito moderno são a força e gloria real do Saltério. Elas são essenciais para o seu caráter e ênfase verdadeiramente bíblicos.

Aqueles que amam somente um aspecto dos Salmos, enquanto encontra outros aspectos alienados de sua vida religiosa, ou mesmo desagradáveis e ofensivos, já estão envolvidos num processo que, se não revertido, conduzirá no decorrer do tempo a uma completa rejeição do Saltério como manual de louvor. Mas isto não é tudo. Este mesmo processo, se não detido, conduzirá no decorrer do tempo a um completo abandono da religião bíblica da redenção de um reino objetivo do mal, a um tipo de religião alienada, a um tipo de religião que é divorciada de fatos históricos e que é meramente subjetiva e idealista. Conduzirá a um tipo de religião que, ao invés de dizer “Eu creio no Senhor Jesus Cristo”, dirá: “Eu creio na bondade, verdade e beleza”. E neste idealismo subjetivo não há salvação.

Os Salmos são balanceados, eles são livres de toda ênfase unilateral. Eles têm suportado o texto do tempo. Apeguemo-nos a eles, amemo-los, gloriemo-nos neles, cantemo-los de todo coração, e nunca, nunca peçamos desculpas por causa deles ou nos envergonhemos deles. Eles são nossa herança, uma parte das tendas de Sem que Deus planejou e preparou para nós habitarmos, para Sua glória e para o nosso próprio bem.”…

² Nota do tradutor: Os Salmos 113 a 118 são chamados pelos judeus de Salmos de Hallel, por serem salmos de louvor.
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Johannes Geerhardus Vos – Ashamed of the Tents of Shem?: The Semitic Roots of Christian Worship
Fonte – Monergismo
Tradução – Felipe Sabino