A necessidade do Sabbath

[Por: João Calvino]

“…As assembleias ecleslásticas nos são prescritas pela palavra de Deus, e sua necessidade plenamente conhecida pela própria experiência da vida: a menos que fossem estabelecidas e tivessem seus dias constituídos, de que modo se poderiam dar? Da palavra do apóstolo tem-se que tudo deve ser conduzido por nós decentemente e em ordem [1 Co 14:40]. De fato, a menos que seja possível conservar esse governo e moderação, estão tão distantes o decoro e a ordem que, uma vez dissolvidos, far-se-á presentíssima a perturbação e a ruína da Igreja. Pois, se cabe a nós a mesma necessidade para a qual o Senhor constituíra o sábado como um auxílio para os judeus, ninguém infira que ela em nada nos toque. Com efeito, o nosso Pai providentíssimo e indulgentíssimo provê não menos a nossa necessidade que a dos judeus. Por que, pode se dizer, não nos reunimos antes todos os dias, para que assim se suprima a distinção dos dias? Quisera isso se desse! Com certeza a sabedoria espiritual seria digna de dedicação diária de uma partígula de tempo. Mas, se não é possível obter da debilidade de muitos que se reúnam diariamente, e a regra da caridade não permite exigir mais deles, por que não nos submetermos à regra que vemos ser imposta para nós pela vontade de Deus?

33.Sou obrigado a me alongar um pouco mais aqui, já que hoje não poucos espíritos inquietos alvoroçam-se a respeito do dia do domingo: reclamam que a massa cristã seja favorável ao judaísmo, pois que mantém alguma observação dos dias.(417) Eu, porém, respondo que esta além do judaísmo observar a esses dias, uma vez que nisso diferimos em muito dos judeus. Com efeito, não o celebramos como uma cerimônia estritíssima da religião, na qual consideramos ser figurados os mistérios espirituais, mas o tomamos como um remédio necessário para manter a ordem na Igreja. Paulo ensina que os cristãos não sejam julgados por sua observância, uma vez ser ela uma sombra da realidade futura [Cl 2:16]; por isso teme ter trabalhado em vão entre os gálatas, visto que ainda observavam os dias [GL 4:10,11]. E disse em Romanos que é supersticioso quem distingue um dia de outro dia [Rm 14:15]. Mas quem, além desses furiosos, não vê de qual observância trata o apostolo? Com efeito, não tinham em vista o fim político e da ordem eclesiástica, mas, quando retinham as sombras tais quais as realidades espirituais, obscureciam na mesma medida a glória de Cristo e a luz do Evangelho. Por isso não se abstinham das obras manuais, porque seriam empecilhos ao zelo sagrado e à meditação, mas porque, por certa religiosidade, imaginavam que, ao se abster, cultivavam os mistérios uma vez a eles recomendados. Digo que foi a respeito de tal distinção extemporânea que investiu o apóstolo, e não a respeito da escolha legítima que serviu à paz da sociedade cristã, visto que nas Igrejas por ele instituídas o sábado era mantido com esse fim. De fato, prescreveu aos corintios esse dia, pelo qual recolheriam as oferendas para apoiar seus irmãos de Jerusalém [1 Co 16:2]. Caso se tema a superstição, muito maior era o perigo nas pausas judaicas que nos dias de domingo, agora mantidos pelos cristãos. Assim, visto que era proveitoso afastar a superstição, foi abolido o dia religioso dos judeus, e como era necessário manter na Igreja o decoro, a ordem e a paz, outro dia foi destinado para esse fim.

34. Não foi aleatoriamente que aqueles a quem chamamos antiogs colocaram o dia de domingo no lugar do sábado. Dado que a verdadeira quietude que o antigo sábado representava teve na ressureição do Senhor um fim e complemento, pelo mesmo dia, que pôs fim à sombra, os cristãos são admoestados a n ão aderir a uma cerimônia de sombras.”…

Nota:
417. Refere-se aos anabatistas. Cf. também Serveto, De justicia regni Chr., c.III, E7a.
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João Calvino – A Instituição da Religião Cristã, Tomo I, livro 2, Capítulo VIII. Editora Unesp. p. 377-378