Calvino e a Livre Oferta do Evangelho

[Por: João Calvino]

Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.” [Romanos 1:16]

“…Visto que Deus não opera eficazmente em todos os homens, mas só quando o Espírito ilumina nossos corações como seu Mestre, ele adiciona todo aquele que crê. O evangelho é deveras oferecido a todos para sua salvação, mas seu poder não se manifesta universalmente. O fato de que o evangelho é aroma de morte para os ímpios não vem tanto de sua própria natureza, mas da própria perversidade humana. Ao determinar um caminho de salvação, ele elimina a confiança em quais-quer outros caminhos. Quando os homens se retraem desta salvação singular, eles encontram no evangelho uma segura evidência da própria ruína deles. Quando, pois, o Evangelho convida a todos a participarem da salvação, sem qualquer distinção, ele é corretamente designado a doutrina da salvação. Pois Cristo é nele oferecido, cujo ofício particular é salvar aquele que se acha perdido, e aqueles que recusam ser salvos por Cristo encontrarão nele seu próprio Juiz. Na Escritura, a palavra salvação é estabelecida em oposição à palavra morte; e quando ela ocorre, devemos considerar qual é o tema em discussão. Portanto. visto que o evangelho livra da ruína e da maldição da morte eterna, a salvação que ele assegura não é outra coisa senão a vida eterna? ²⁸…”

²⁸. Sobre o poder de Deus, observa Pareus, o abstrato, segundo a maneira hebraica, é posto em lugar do concreto. Poder significa o Instrumento do poder de Deus ou; seja, o Evangelho é um instrumento feito eficaz pelo poder divino para comunicar salvação aos crentes. Ou, como diz Stuart: “É pela energia poderosa que ele o comunica, e assim passa a chamar seu poder.” Chalmers elabora esta paráfrase: “Aquilo que, por mais Julgado e desprezado pelos homens deste mundo como um instrumento frágil, é aquilo que ele, por seu próprio poder, produz efeito para a descoberta daquela vida que todos os homem têm perdido e perderam em virtude do pecado.”
“O evangelho é um ato divino que continua operando através de todas as eras do mundo, e isso não primeiro externamente, mas internamente nas profundezas da alma e para propósitos eternos” – Dr Oishausen.
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João Calvino, Comentário em Romanos 1. Editora Fiel, p. 65-66

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Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida.” [Romanos 5:18]

“…Cristo, nos lembra Paulo, não era privativamente justo em consideração a si mesmo, senão que a justiça com que fora ele dotado era de caráter mais extensivo, a fim de que pudesse enriquecer os crentes com o dom que lhe fora conferido. Paulo toma a graça comum a todos os homens, não porque de fato e em verdade se estenda a todos, senão porque ela é oferecida a todos. Embora Cristo sofreu pelos pecados do mundo, e é oferecido pela munificência divina, sem distinção, a todos os homens, todavia nem todos o recebem.²²…”

²². “Nam etsi passus est Christus pro peccatis totius mundi. atque omnibus indifferenter Dei benignitate offertur; non tamen omnes apprehendum.” Desta senteça PARECE que Calvino defendia a redenção geral.
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João Calvino, Comentário em Romanos 5. Editora Fiel, p. 229

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O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.” [2 Pedro 3:9]

“…Não querendo que alguns pereçam. Tão maravilhoso é seu amor para com a humanidade, que Seu desejo é que todos fossem salvos, e de sua própria vontade está preparada para conceder a salvação aos perdidos. Mas é preciso notar a ordem: Deus está pronto a receber a todos os que se arrependem, de modo que nenhum desses pereça; pois nestas palavras se põe em relevo o modo e maneira de se obter a salvação. Cada um de nós, portanto, que anseia pela salvação, deve aprender a entrar por este caminho.

Mas é possível que se pergunte: se Deus deseja que ninguém pereça, por que é que tantos perecem? A isto minha resposta é que aqui não se faz menção do propósito secreto de Deus, segundo o qual os réprobos se destinam a sua própria ruína, mas se faz menção somente de sua vontade como a conhecemos no evangelho. Pois Deus ali estende sua mão a todos sem qualquer diferença, porém segura, para atrair a si, somente aqueles a quem escolheu antes da fundação do mundo.³⁶…”

³⁶. Um ponto de vista semelhante foi assumido por Estius, Piscator e Beza.
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João CalvinoComentário em 2 Pedro. Editora Fiel, p. 349

Fonte: Biblioteca João Calvino