O caminho que deve ser rejeitado

[Por: João Calvino]

Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” [Salmos 1:1]

“…Como, porém, a habilidade de Satanás consiste em insinuar seus embustes, de uma forma muito astuta, o profeta, a fim de que ninguém se deixe insensivelmente enganar, mostra como paulatinamente os homens são ordinariamente induzidos a desviar-se de seu reto caminho. No primeiro passo, não se precipitam em franco desprezo a Deus; mas, tendo uma vez começado a dar ouvidos ao mau conselho, Satanás os conduz, passo a passo, a um desvio mais acentuado, até que se lançam de ponta cabeça em franca transgressão. O profeta, pois, começa com conselho, termo este, a meu ver, significando a perversidade que ainda não se exteriorizou abertamente. A seguir ele fala de vereda, o que deve ser tomado no sentido de habitual modo ou maneira de viver. E coloca no ápice da ilustração o assento, uma expressão metafórica que designa a obstinação produzida pelo hábito de uma vida pecaminosa. Da mesma forma, também, devem-se entender os três verbos: andar, deter e assentar. Quando uma pessoa anda voluntariamente em consonância com a satisfação de suas corruptoras luxúrias, a prática do pecado o enfatua tanto que, esquecido de si mesma, se torna cada vez mais empedernida na perversidade, o que o profeta denomina de deter-se no caminho dos pecadores. Então, por fim, segue-se uma desesperada obstinação, a qual o profeta expressa usando a figura do assentar-se. Se porventura existe a mesma gradação nas palavras hebraicas, רשעים (reshaim), חטאים (chataim) e לצים (letsim), ou seja, um aumento gradual do mal, deixo a critério de outrem. A meu ver, tudo indica que não há, a não ser, talvez, na última palavra.”…
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João Calvino – Comentários dos Salmos. Volume I. Editora Fiel, p. 43-44
Fonte: Biblioteca João Calvino