Salmodia

Princípios do Culto Cristão Regulado e Restrito, Descente e com Ordem e o Cântico de Salmos na Igreja.
(Por Rev. Ademir Moreira)

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1. Princípios do Culto Cristão Regulado e Restrito, Descente e com Ordem

O ato de adorar ao Senhor, publicamente, em solene convocação do Seu Povo e Igreja, não é um ato meramente social e encerrado dentre as coisas que estão “sob o sol”. Antes, “o Senhor está no Templo”, habita Ele mesmo na reunião no Seu Povo e exibe ali, na pública convocação, para os olhos que já foram abertos pelo Espírito, coisas celestiais e maravilhosas que mesmo os Anjos anseiam contemplar (cf. Mt. 18:20; Jo. 20:19; At. 4:31; 1 Cor. 3:16; Ef. 2:19-22; Hb.12:22; 1 Pd. 1.12; 1 Cor. 11:10; Sl. 11:4; Sl. 29:9). A graça e misericórdia de nosso Senhor, para glória do Seu próprio Nome, deu a fiel Palavra aos Seus ministros e pregadores para levantarem-se, geração após geração, convocando todos que O amam e temem a aperceberem-se desta espiritual e sublime natureza do Culto, honrando o Nome do Senhor ali, quando recebem do pão da vida para vivificação de suas almas. Mas, exatamente como procederemos para honrar o nome do Senhor e adorá-lO de uma forma agradável a Ele, nosso amado Rei e Salvador? O que tem os Seus mandamentos e os guarda, com misericórdia e justiça, será amado pelo Senhor; o que confessa a Cristo Jesus, e não nega que o Senhor veio em carne ao mundo para, sendo em tudo perfeito, dar sua vida para nós salvar, o Justo pelos injustos, conhece Verdade. Mas como guardar os mandamentos do Senhor e confessá-lO no Culto? Fazendo e ensinando tudo conforme a Palavra do Senhor, o Livro da sua Lei, a Escritura Sagrada estabelece. A Escritura ordena que o Culto deve ser ordeiro, bem organizado, solene e cheio de reverência; vivo e impressionante, não pelo que os homens podem fazer, mas pelo poder de Deus e pela Sua Palavra. Não é lícito introduzir no Culto o que visa agradar aos homens, ou artificialmente movê-los e afetá-los nas suas afeições carnais. Não nos admoesta a isto o Apóstolo Paulo no décimo-quarto capítulo da Epístola aos Coríntios? O Apóstolo ali nos ensina que o conhecimento de Deus levando-nos a honrá-lO como Santo e Benigno, “de paz” e “de ordem”, é determinante, restritivo, sobre o Culto – mais importante que os impulsos e desejos humanos, mesmo os de verdadeira origem no Espírito de Deus que atuava sobre os Profetas. Prestar Culto ao Senhor usando de qualquer coisa que fuja às restrições impostas pela Sua Palavra é idolatria e desonra, vergonha e maldição. O que a Escritura comanda OBRIGATORIAMENTE deve nos bastar, porque a Escritura é suficiente para fazer o Cristão completamente apto para toda boa obra. Portanto, não sejamos enganados pelo nosso vão coração. A cada prática que aprendemos e mantemos por mera tradição, levantemos inquirição:

Está assim na Escritura?

Era assim que nosso Senhor e os apóstolos cultuavam e ensinaram aos discípulos subsequentes?

Tudo o que Deus comandou, façamos; o que a imaginação humana inventa, rejeitemos. Confessemos ao nosso Senhor com outros lábios e com um caminhar irrepreensível em todas as coisas, inclusive, claro, na administração e vida de Sua Igreja. Sejamos gratos que Ele, desde o século XIX, fez chegar a Igreja Puritana, pela herança da Reforma, este necessário Testemunho e ensino, que nos desperta zelo e amor pela Pureza do Culto ao Senhor, com estrito apelo às Escrituras; e oremos dia e noite para que o Senhor dê humildade e discernimento aos que se chamam pelo Seu Nome, iluminando mais e mais homens que anseiam pela Sua Glória somente, edificando Sua Igreja a contemplar a Cristo Jesus, em quem e por quem somente, na Justiça dEle e não por nada que haja em nós, nosso Culto é aceito por Deus. Eis que contemplando-O, com nossa alma movida de amores e a consciência cheia de vergonha, mui mais facilmente dobraremos nossa dura cerviz, para que Ele comande também sobre a forma, conteúdo e vigor espiritual de todo o Culto que rendemos em Seu Nome.

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2. Segundo a bíblia, o que a igreja deve cantar?

1. O Princípio Regulador do Culto postula algumas coisas que se tornam necessários pressupostos para interpretação dos textos bíblicos. Se alguém crê no Princípio Regulador como doutrina bíblica, certas afirmações necessariamente seguem; caso contrário não se crê no Princípio Regulador, mas em uma mera mímica. Portanto, algumas afirmações provêm do PRC:

A – O Senhor Deus governa sobre o culto, ato de adoração pública, dirigido a Ele de forma ESPECIAL, distinta da forma como ativamente Ele governa e legisla sobre outros atos humanos.

B – O culto deve ser composto de elementos necessários prescritos, portadores de conteúdos objetivos, a serem executados teleios[1] (com pureza, completude, perfeição máxima local e historicamente). Por exemplo: Pregar é elemento ordenado; a Bíblia revelada em Cristo é o conteúdo ordenado; expositivamente, exaustivamente, experiencialmente, redentivamente, concretamente, sequencialmente e sobrenaturalmente é a pureza e completude sob a herança do tesouro acumulado da igreja na história. Falhar no elemento torna o culto falso; falhar no conteúdo conspurca ou invalida o culto; na completude torna-o defectivo, aquém da Glória que pode portar. Alguns autores tratam, primeiramente, do elemento “cantar“, e, secundariamente, da caracterização do conteúdo. Cremos, assim como os Reformadores Calvinistas e os Puritanos, que é mais preciso, proveitoso e prudente qualificar os Salmos de Davi como teleios do conteúdo “inspirado” do elemento “cântico“; em português, vide o prefácio do Saltério de Genebra para uma explicação semelhante.

C – O governo e a legislação especial de Deus sobre o Culto caracterizam-se por exigir ordem positiva e direta, explícita ou de necessária conclusão, para a instituição e regulamentação dos atos do Culto.

D – O respeito restritor à consciência e natureza, em assuntos anuviados ou circunstâncias,deve ser praticado. A tolerância se aplica sempre ao julgamento e em vigilância contra a auto justificação, mas nunca como base para instituição de práticas. O PRC é restritor por definição.

Relacionado a isto, com devido peso, não podemos esquecer o JUS DIVINUM[2] na administração eclesiástica. O PRC, portanto, nos leva a conclusão:

A) Escritura estabelece “cantar” como dever do culto. Então, temos, na Palavra de Deus, preceitos positivos para necessária conclusão:

1. As Escrituras tanto do Antigo quanto do Novo Testamento ordenam o cântico dos Salmos (1 Cr 16.7-9; II Cr 29.30; Ef 5.19; Cl 3.16).

2. O Senhor Jesus e os discípulos cantaram os Salmos (Mt 26.30; Mc 14.26).

3. Os apóstolos “cantaram” ou “recitaram” os Salmos (At 1.16,17 c/ Sl 41.9; 69.25; 109.4-8; 2.24-33 c/ Sl 16.8-11; 4. 24 c/ Sl 146.5,6; 4.25,26 c/ Sl 2.1,2; 13.33 C/Sl 2.7; 13.33-37 C/ Sl 2.7,10).

B) A referência do ponto (1), no Velho Testamento, é o ministério de músicos davidicos (JUS DIVINUM) e do ponto (2), é o Saltério de Davi no culto público congregacional.

Logo:

Temos firmeza para tomar como dever o canto a partir do Saltério de Davi, pelo JUS DIVINUM e pelo exemplo mais perfeito. Para cantar qualquer outra coisa, carecemos de igual comando positivo e firme.

Qualquer tentativa de refutação que apela para atos extra culto, para tentar invalidar o valor do preceito positivo do exemplo de nosso Senhor, ignora a definição do PRC. E fora do PRC não faz sentido discutir a questão.

A exegese triádica ou paralelista sinonímia de Efésios 5.19 e Colossenses 3.16 não é condição necessária para a defesa da Salmodia Exclusiva. Muitos defensores da SE não consideravam estes textos como exemplo de triadismo ou paralelismo sinonímia. Contudo, estes textos também não tem força para justificar o cântico de hinos não-inspirados por quem se apega ao PRC, pois, não comanda inequivocamente o cântico de tais composições, nem há nada que estabeleça o JUS DIVINUM e o preceito positivo para a composição de tais obras. A existência do triadismo e paralelismo, como figura de linguagem, que expressa igualdade ou relação estreita entre os termos é bem estabelecida como princípio hermenêutico, vide os estudos extensos e firmes de John Lightfoot ou Fairbairn, e, mesmo que no caso não seja sinonímia, é bastante inapropriado duvidar da existência da figura em si.

A evidência da Septuaginta é muito poderosa porque o Espírito de DEUS ao inspirar o Novo Testamento não se privou de citar esta tradução como Escritura e nosso Senhor também não o fez.

Embora não seja decisiva para todos, ao menos estes dois pontos bem estabelecidos limitam a interpretação destes versículos a:

1) realmente uma referência ao Saltério de Davi;

2) ou, etimologicamente, uma descrição da amplitude das formas poéticas e melodias inter-relacionadas que expressam historicamente, desde o Velho Testamento, o tipo de texto que se canta ao Senhor, possivelmente em contraste com a forma vulgar e carnal dos cânticos e melodias pagãs.

Não há nada no contexto ou na etimologia que necessariamente limita o significado deste trecho triádico às “composições humanas inspiradas“, logo, ele não tem poder para constranger a consciência ao uso das tais. Considerando os textos claros que nos constrangem ao Saltério de Davi, e a exigência restritiva do PRC, permanece o Saltério como padrão.

Lembrando que não é de Efésios e Colossenses que vem a doutrina da Salmodia Exclusiva. Muito menos de dois versículos isolados destas cartas. Os Puritanos e Reformadores eram avessos ao text proofing. [3] Suas doutrinas eram extraídas hermeneuticamente da Escritura como um todo e se interlaçavam harmonicamente. A SE depende, por exemplo, do PRC; depende do Sacerdócio Universal dos Santos (porque com a expiração de uma classe sacerdotal toda adoração por proxy[4] expirou: como não temos mais instrumentos, sem as casas específicas dos Levitas, não temos mais compositores sem a casa de Asafe e correlatos); depende da Revelação Progressiva (o Novo Testamento) tem uma Palavra final e encerrada que revela perfeita e suficientemente a Deus, cujo culto não é mais sensorial e terreno, segundo os rudimentos do mundo, mas espiritual e perfeito, havendo a Lei sublimado em mais firmes e assentadas práticas e doutrinas), da Prudência e Piedade, do JUS DIVINUM no Governo da Igreja, do Establishment  Principle[5], etc.

Portanto, interpretação dos referidos versículos soma peso à SE para quem toma o triadismo como sinonímia, com o valor dos títulos da LXX, [6] mas não tira peso da SE para quem não entende assim.
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[1] Palavra Grega para perfeição ou completude (τέλειος)
[2] Do latim: Lei Divina. Termo usado também para se referir aos “Direitos Divinos” do Senhor, neste caso, de regular o culto conforme Sua vontade.
[3] Uso de textos-prova para estabelecer uma doutrina.
[4] Por representação.
[5] Doutrina que expõe biblicamente qual deve ser a relação entre Igreja e Estado.
[6] Septuaginta.
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Rev. Ademir Moreira